O desfibrilhador automático externo (DAE) pode e deve ser utilizado em situações de paragem cardiorrespiratória (PCR) em crianças e bebés. No entanto, existem algumas diferenças importantes no procedimento, desde o tipo de elétrodos até à prioridade do suporte básico de vida (SBV). Este artigo explica com clareza os passos a seguir, com base nas recomendações do INEM e das diretrizes europeias de reanimação.
Se procura informações sobre a utilização do DAE em adultos, pode consultar a nossa página dedicada Tudo sobre o Desfibrilhador automático externo.
O que é um DAE e como funciona?
O DAE é um dispositivo seguro, projetado para avaliar automaticamente o ritmo cardíaco da vítima e administrar um choque, se necessário. Fornece instruções visuais e auditivas passo a passo, facilitando a sua utilização mesmo por leigos. É importante lembrar que o DAE deve ser utilizado sempre em combinação com Suporte Básico de vida (SBV) eficaz.
Descubra a história do DAE até aos dias de hoje.
Diferenças importantes no uso do DAE em crianças
Embora o funcionamento básico do DAE seja igual em qualquer idade, a aplicação em crianças exige algumas adaptações. Isto acontece porque o corpo de uma criança é mais pequeno, o coração tem características fisiológicas distintas e a energia de choque necessária é inferior à de um adulto. Por esse motivo, as principais sociedades científicas internacionais — e também o INEM em Portugal — recomendam que, sempre que possível, se utilizem elétrodos pediátricos ou um sistema atenuador de corrente /modo pediátrico, que reduzem a quantidade de energia entregue durante a desfibrilhação.
De forma prática, considera-se criança, para efeitos de utilização do DAE, quem tenha menos de 8 anos de idade ou pese menos de 25 kg. Nestes casos, existem alguns cuidados a seguir:
Preferir elétrodos pediátricos ou modo pediátrico do DAE: fornecem a energia adequada ao tamanho e idade da criança.
Se não existirem elétrodos pediátricos (ou modo pediátrico): usar elétrodos de adulto, mas em posição antero-posterior (um no centro do peito, outro nas costas, entre as omoplatas).
Se houver elétrodos pediátricos ou DAE com modo pediátrico disponíveis: podem ser aplicados na posição habitual, semelhante ao adulto (um abaixo da clavícula direita, outro abaixo da axila esquerda).
Garantir sempre afastamento suficiente: os elétrodos nunca devem tocar-se, sob risco de comprometer a desfibrilhação.
Este conjunto de adaptações permite que o DAE seja utilizado com segurança em crianças, sem atrasar a resposta. O princípio fundamental é simples: usar sempre o que estiver disponível, assegurando que a corrente atravessa o coração de forma eficaz.
Assista ao vídeo e perceba como se realiza o SBV-DAE em crianças
O que muda com bebés (lactentes até 1 ano)
Nos primeiros meses de vida, a paragem cardiorrespiratória tem causas e características distintas da que ocorre em adultos. Os lactentes apresentam com muito menos frequência ritmos passíveis de desfibrilhação, como a fibrilhação ventricular. Na maioria das vezes, a PCR resulta de problemas respiratórios — uma obstrução das vias aéreas, uma infeção grave ou um episódio de afogamento — o que torna ainda mais crucial a realização de um suporte básico de vida de alta qualidade.
Apesar de menos comum, também em bebés pode existir uma arritmia grave que beneficie de desfibrilhação. Por isso, a regra é clara: se houver um DAE disponível e este recomendar choque, o choque deve ser aplicado sem hesitação. O que nunca deve acontecer é atrasar o início das compressões torácicas e das ventilações à espera do equipamento. A prioridade é sempre iniciar manobras de SBV.
De forma prática, ao lidar com lactentes deve-se ter em conta:
Probabilidade reduzida de ritmos desfibrilháveis: o foco deve estar nas compressões torácicas e ventilações eficazes.
Uso do DAE só se estiver disponível: aplicar elétrodos e seguir as instruções; se recomendar choque, este deve ser administrado.
Não atrasar o SBV: compressões e ventilações devem ser iniciadas de imediato, mesmo que ainda não exista um DAE no local.
Colocação dos elétrodos: em caso de tórax muito pequeno, utilizar a posição antero-posterior para garantir eficácia (um no centro do peito, outro nas costas).
Assista ao vídeo e perceba como se realiza o SBV Pediátrico.
Passos fundamentais para utilizar o DAE em crianças e bebés
A utilização de um DAE em crianças e bebés segue a mesma lógica do adulto: garantir a segurança, confirmar a ausência de sinais vitais, iniciar compressões e aplicar o choque se indicado. No entanto, a sequência deve ser adaptada a cada idade, sobretudo porque em crianças pequenas a paragem cardiorrespiratória tem muitas vezes origem respiratória. Por isso, é essencial dar atenção às insuflações e ao início imediato das manobras de suporte básico de vida, mesmo antes de o DAE estar disponível.
De forma resumida, os passos a seguir são:
Garantir a segurança do local: verificar se não há riscos ambientais, elétricos ou tóxicos que possam comprometer a atuação.
Avaliar a consciência e a respiração: se a criança não responde e não respira normalmente, deve assumir-se uma paragem cardiorrespiratória.
Chamar de imediato o 112: o pedido de ajuda deve ser feito logo, idealmente por outra pessoa, para que as manobras não sejam interrompidas.
Iniciar o SBV: em crianças, recomenda-se começar com 5 insuflações seguidas de compressões; em bebés, quando se suspeita de causa cardíaca, pode-se antecipar as compressões.
Pedir e ligar o DAE o mais depressa possível: se houver elétrodos pediátricos, usá-los; caso contrário, aplicar os de adulto na posição adequada.
Colocar corretamente os elétrodos: respeitando as diferenças entre crianças e bebés para assegurar eficácia.
Seguir as instruções do DAE: o dispositivo indica claramente se é necessário administrar choque.
Retomar imediatamente o SBV após cada análise ou choque: nunca esperar passivamente pelo próximo comando do equipamento.
Manter o SBV até à chegada da ajuda especializada ou até a vítima retomar sinais de vida.
Cuidados de segurança adicionais
Ao usar um DAE em crianças e bebés, é essencial respeitar algumas regras de segurança. O objetivo é garantir a eficácia da desfibrilhação e, ao mesmo tempo, proteger tanto a vítima como o reanimador.
Os principais cuidados são:
Secar a criança se estiver molhada, pois a humidade pode dispersar a corrente elétrica e comprometer o choque.
Evitar colocar elétrodos sobre marcapassos ou adesivos cutâneos, garantindo sempre um afastamento mínimo de 8 cm destes dispositivos.
Certificar-se de que ninguém toca na criança durante a desfibrilhação, para prevenir riscos de acidente elétrico e não interferir com a análise do DAE.
A formação em SBV-DAE pediátrico faz a diferença
Saber como reagir corretamente pode salvar vidas. A formação adequada permite ganhar confiança ao usar o DAE em crianças e bebés, reconhecendo sinais, aplicando técnicas com segurança e otimizando o tempo de resposta. É particularmente relevante para professores, monitores, treinadores, educadores e funcionários em locais frequentados por menores.
Conclusão
O DAE é uma ferramenta extremamente eficaz, até mesmo em crianças e bebés. As diferenças-chave estão no tipo de energia a utilizar, na adaptação dos elétrodos e na prioridade do SBV em lactentes. A formação contínua e prática é essencial para garantir uma resposta rápida, segura e confiante em situações reais.





